Sempre sem lhes tocar

Hoje estive uma hora e meia com os meus filhos sem nunca lhes tocar. A terça, é o dia em que, na semana deles com o pai, eu vou jantar com eles. Hoje foi tudo diferente. Hoje fui almoçar com eles ao sol, no jardim, num piquenique que tinha tudo para ser maravilhoso. Na memória vai ficar com certeza. Aquele piquenique em que nos sentamos a uma distância segura… e só os deixei tirar a máscara depois de distribuir a comida por todos e me afastar para a tal distância segura. O corona vírus ainda era um pouco (muito pequenino) ficção, porque felizmente andava distante. Deixou de ser no domingo ao final do dia.

Estava eu a conduzir quando recebo uma mensagem e antes da luz do telefone desligar consigo passar os olhos na notificação. O meu pensamento para, processa e dou um grito: «Aaaai! Ele está positivo. Positivo, ele está positivo. Os meninos!!!!» O meu coração parou. O meu namorado, sentado ao meu lado, repetia baixinho «tem calma, você está dirigindo!». Pode ter dito isto ou outra coisa qualquer. Eu deixei de ouvir. A mensagem era do pai dos meninos e esta é a semana dele. «Os meninos estão lá, não estão comigo. Quando é que os volto a ver? E se eles testarem positivo?!» Telefonema atrás de telefonema, de voz embargada e muita dor, lá fui começando a perceber o cenário e a tomar decisões. A minha vontade era ir buscá-los e ficar com eles no colo até me esquecer daquela mensagem. Mas a razão não deixou que assim fosse. Na verdade, a razão foi o meu namorado que esteve horas a tentar que eu fizesse o exercício de imaginar que esta situação não estava a passar-se comigo e sim com alguém bem distante, para eu conseguir decidir sem emoção. Demorei horrores. Ambos testaram negativo com os testes rápidos, mas todos sabemos que não são 100% seguros e se estavam negativos no domingo poderiam positivar nos dias seguintes. A razão disse-me que deveriam manter-se no pai. Apesar de todos os pensamentos que tive, pois na minha cabeça eu só conseguia ver a questão como «os meus meninos estando longe de mim», foi a escolha mais acertada, mais coerente com as recomendações mais recentes.

É assim que estamos a viver estes dias, um bocadinho de cada vez.

O piquenique foi maravilhoso. Foi a solução possível para que nos pudéssemos ver em segurança. Os meninos sorriram e até jogamos à bola. Mas eu só queria ir-me embora. Parece estúpido dizer isto, porque eu tenho imensas saudades deles, mas não poder tocar-lhes é tortura. E logo nós que somos de abraço. Quando nos vemos damos logo muitos abraços, daqueles maljeitosos em que tudo o que segurávamos nos cai. Quando acordamos damos abraços, quando os vou buscar à escola damos abraços, quando os deito damos abraços, a meio das refeições damos abraços… e hoje quando desceram e nos vimos nenhum de nós se aproximou. Pareciam muito crescidos e responsáveis com as suas máscaras. Até o de 4 anos se comportou exemplarmente. Por isso eu só queria que acabasse, para que aquela forma de estarmos não se prolongasse… Uma estupidez. Um sentir misto e confuso.

Hoje foi um dia memorável, não pelos melhores motivos. Vamos ver o que os restantes dias nos reservam.

Cuidem-se.

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